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Ex-advogado da Afipe enviou carta ao padre Robson falando sobre supostos ‘atos ilícitos’ dentro da associação

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Há seis dias, PF fez um pedido de prisão contra o religioso ao STJ citando suposto pagamento de R$ 750 mil em propina a desembargadores e um juiz de Goiás para ganho de ação. Além do padre, PF também pediu a detenção de mais quatro pessoas, entre elas, o ex-advogado da Afipe.

O ex-advogado Associação Filhos do Pai Eterno (Afipe), Anderson Reiner Fernandes enviou uma carta ao padre Robson de Oliveira questionando sobre atos ilícitos dentro da associação. O documento foi encontrado pelo Ministério Público de Goiás (MP-GO) no celular do religioso durante a operação Vendilhões, em 2020. Há seis dias, a Polícia Federal protocolou um pedido de prisão contra o padre e mais quatro pessoas ao Superior Tribunal Federal (STF).

A TV Anhanguera teve acesso ao documento localizado durante a operação nesta segunda-feira (22). Na carta, assinada pelo ex-funcionário em 21 de julho de 2020, ele começa falando que se ele ou o padre estão errados ou pecando, que não é por vontade própria, “mas devido à pequenez, insensatez e porque são míseros pecadores”.

g1 entrou em contato com o ex-funcionário da Afipe pedindo um posicionamento por mensagem enviada às 19h52, mas não obteve retorno. A TV Anhanguera também solicitou um posicionamento para a assessoria do religioso, mas não teve retorno.

O documento mostra ainda que o ex-advogado disse ao padre que se fizessem uma auditoria na Afipe, ele seria visto e condenado por “incompetência e mal uso de dinheiro público”. No entanto, ele escreveu ainda que a auditoria não deveria ser feita pelo religioso para que não houvesse “manipulação”.

“E não é o senhor auditar, manipulando ou tapando resultados”, disse o advogado que trabalhava para a Afipe.

Durante a carta, o advogado lembrou de uma conversa que teve com Robson em que o religioso apontou que todos dentro da associação o viam como um “corrupto”.

“Essas pessoas que trabalham na Afipe têm medo de acontecer o pior e vivem nessa berlinda, com jogos de intriga, fofoca e empurra, sem assumirem comprometimento e sem respeitarem a mim, pois veem a mim como um corrupto”, teria dito o religioso ao ex-funcionário.

Advogado citou em carta uma conversa que teve com Robson em que o religioso apontou que todos dentro da Afipe o viam como um “corrupto” — Foto: Reprodução/TV Anhanguera

Após isso, o advogado diz se sugeriu ao padre sobre o afastamento dele dos negócios da Afipe, mas que ele não atendeu à proposta. No texto o ex-funcionário finaliza falando sobre “trabalhar em uma zona de conforto prejudicial e ilícita”

“O senhor não adianta ficar com raiva e culpar as pessoas porque isso não é correto. Trabalhar numa zona de conforto, ainda mais quando essa zona de conforto é prejudicial e ilícita”, finalizou.

Pedido de prisão

O pedido de prisão, feito no dia 16 de novembro, cita um suposto pagamento de R$ 750 mil em propina para dois desembargadores e um juiz substituto do Tribunal de Justiça de Goiás para o ganho de uma ação da compra de uma fazenda (veja detalhes mais abaixo).

O advogado dele, Cléber Lopes, disse que defendeu para o ministro relator Benedito Gonçalves as razões para que o religioso siga solto, na tarde desta segunda-feira (22).

“Tivemos uma audiência no gabinete do ministro relator, explicamos as razões pelas quais a gente considera que a prisão é desnecessária e agora é esperar o ministro examinar”, disse o advogado do padre.

A advogado do padre disse que os fatos usados para fazer o pedido são antigos e que não existe justificativa para a prisão. Além disso, foi feita uma representação contra a solicitação da Polícia Federal. Ele informou ainda que não existe um prazo definido para que o STJ julgue o pedido da PF.

O STJ disse, em nota, que “não divulga informações sobre ações originárias em segredo de Justiça, as quais estão sob o comando dos respectivos relatores, sob pena de prejuízo ao andamento das investigações”.

O pedido de prisão temporária é contra o padre Robson de Oliveira, o advogado Cláudio Araújo Pinho, os dirigentes da Associação Filhos do Pai Eterno (Afipe), Anderson Reiner Fernandes e Rouane Carolina Azevedo e o contador da associação José Pereira.

A reportagem tentou contato com os ex-membros da Afipe para solicitar um posicionamento, mas as ligações não foram atendidas. O g1 também tentou contato por mensagem com o advogado Cláudio Pinho, mas não obteve retorno.

Suposta propina

A PF começou a investigar os suspeitos porque, durante a apuração feita pelo Ministério Público de Goiás, apareceu um áudio do padre em que ele falava sobre o pagamentos de propina a desembargadores (veja vídeo abaixo).

“Estou em uma situação que está complicando minha vida. Fez um documento de acordo extrajudicial em termo de sub-rogação de valores lá daqueles R$ 600 mil que passei através do Medeiros para aquele desembargador. E colocando assim, parecendo que existe um mútuo, um contrato de empréstimo feito para o Medeiros, como se eu fosse sub-rogar para o Medeiros”.

No pedido de prisão, a PF também cita outro trecho da conversa entre o padre, o advogado Cláudio Pinho e o ex-dirigente da Afipe, Anderson Fernandes.

O advogado diz:

“Deixa eu falar um negócio para senhor, só para relembrar. Uma parte desse valor. Entendeu. Já não me pertence, já está comprometido e isso eu preciso acertar”.

Anderson fala para o padre:

“Eu quero ser bem mais claro. Ele está dizendo que para ganhar lá, no Tribunal, ele comprou pessoas”.

O padre questiona:

“Qual é essa parte?”

Anderson relembra:

“O senhor se comprometeu com R$ 750 mil lá”.

Na sequência o advogado diz:

“Só para o senhor ter noção, dos três desembargadores, R$ 500 [mil] para um e o resto é dividido para dois. Para os outros dois, entendeu? Então, a gente não pode deixar fechar essa porta de jeito nenhum”.

Os investigadores afirmam no documento que a conversa diz respeito ao pagamento do trabalho do advogado no valor de R$ 1,5 milhão. No entanto, metade desse valor teria sido usado para “comprar pessoas e ganhar a ação no Tribunal de Justiça”.

Bilhete encontrado em carro de Padre Robson indica, segundo a PF, o pagamento de propina para desembargadores de Goiás — Foto: Reprodução/Polícia Federal

A corporação cita ainda que, durante a operação Vendilhões, feita em agosto de 2020, foi apreendido um bilhete no carro do padre com a inscrição: “Desembargadores R$ 600 mil”. A anotação, segundo o documento, leva a crer que se trata do acerto aos desembargadores mencionado na reunião gravada entre o padre, o advogado e o ex-dirigente da Afipe.

Suposto envolvimento de desembargadores

No documento que faz o pedido de prisão ao STJ, a Polícia Federal afirma que o pagamento de propina ocorreu, mas que não sabe como aconteceu o acerto, nem quem recebeu o dinheiro a mando ou a nome de desembargadores. Por isso, a necessidade de aprofundar nas investigações para que o fato seja esclarecido.

“Para o bem dos goianos e do sistema judiciário e não continue coberto pelo manto da impunidade dos poderosos”, relatou a PF.

Ainda no documento, a PF lembra que padre Robson havia perdido um processo em primeira instância e recorreu ao Tribunal de Justiça. O recurso, segundo a investigação, foi julgado pela 2ª turma da 1ª Câmara Cível.

Com isso, a Polícia Federal aponta que as autoridades judiciais supostamente envolvidas no fato seriam a desembargadora relatora Amélia Martins de Araújo, o juiz substituto em segundo grau, Roberto Horácio Rezende e o desembargador, agora aposentado, Orloff Neves Rocha.

PF aponta supostos desembargadores que teriam recebido propina de padre Robson — Foto: Reprodução/Polícia Federal

 O que diz a defesa dos desembargadores e juiz:

O advogado Luis Rassi, que defende os três citados no inquérito, disse que o Tribunal de Justiça de Goiás, ao saber das suspeitas, tomou a iniciativa de pedir a apuração dos fatos no âmbito administrativo e judicial.

A nota diz ainda que a conclusão do TJ foi de que os desembargadores foram vítimas de “um vendedor de fumaça”, que utilizou os nomes deles indevidamente (veja na íntegra ao final do texto).

Operação Vendilhões

Operação Vendilhões surgiu após uma investigação que apurou uma série de extorsões feitas por hackers contra o padre para que um suposto relacionamento amoroso dele não fosse divulgado. Ao todo o padre pagou R$ 2,9 milhões com dinheiro da Associação dos Filhos do Divino Pai Eterno (Afipe) em troca do arquivamento das mídias.

Segundo a decisão do STJ, os dados dessa investigação foram compartilhados, tendo sido “ilegalmente utilizados pelo Ministério Público para iniciar a persecução”.

O Ministério Publico cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao padre Robson em agosto de 2020. De acordo com as investigações, as associações criadas pelo religioso movimentaram cercar de R$ 2 bilhões em dez anos.

Os valores deveriam ter sido usados na construção da nova Basílica de Trindade. Porém, foram usados para outros fins, como a compra de imóveis e empresas, segundo os promotores. O templo segue em fase inicial da obra.

Em dezembro de 2020, padre Robson e outras 17 pessoas foram denunciadas por organização criminosa, apropriação indébita, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro. Porém, o processo foi bloqueado pela Justiça.

Nota na íntegra da defesa dos desembargadores e juiz

Sobre o pedido de prisão do Padre Robson e outras pessoas a ele vinculadas, os desembargadores mencionados no inquérito, esclarecem que ao tomarem conhecimentos da suspeita contra eles formulada, de imediato requereram, no âmbito administrativo e judicial a apuração dos fatos.

O Tribunal de Justiça do Estado de Goiás, ao efetivar exaustiva investigação concluiu pela prática do crime de exploração de prestígio pelo advogado mencionado na gravação e no inquérito. Foram analisadas movimentações bancárias, colhidos depoimentos e enfim, auferida a confissão daquele profissional do Direito que firmou ter recebido para si e por si consumido o dinheiro recebido da AFIPE.

Independente do decreto de prisão do padre, de seu advogado, da efetivação de busca e apreensão, ao final, a conclusão do Superior Tribunal de Justiça será a mesma que teve o Tribunal de Justiça do Estado de Goiás. E a única conclusão possível é que os desembargadores foram vítimas de um vendedor de fumaça, que utilizou o nome de homens e de uma mulher de bem, para auferir vantagem ilícita.

Os desembargadores esperam, o quanto antes, o efetivo esclarecimento de todos os fatos irresponsavelmente criados neste maldoso episódio que não deixa de macular a honra pessoal e profissional de pessoas sérias e que se dedicam à vida pública há mais de quarenta (40) anos.

Por Guilherme Rodrigues e Honório Jacometto, g1 Goiás e TV Anhanguera

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