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A polarização não mata a democracia. Na verdade, até a protege

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Assisti ao discurso de Joe Biden sobre o estado da união, no congresso americano. Desde Donald Trump, a compostura vem sendo substituída pela descompostura na democracia americana. Não poderia ser diferente.

Muito se fala sobre como a democracia está morrendo em diversos países, vitimadas por populistas que usariam o voto e as instituições para tentar miná-la por dentro e estabelecer autocracias.

O caso dos Estados Unidos é considerado pelos apocalípticos da democracia como o caso mais emblemático, e a invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021, por trumpistas inconformados com a derrota, é vista como a prova definitiva da sua tese.

Como macaqueamos tudo o que é americano, desde que não sejam os bons modelos, bolsonaristas invadiram as sedes dos poderes em Brasília, naquele 8 de janeiro, dando margem a que os nossos apocalípticos desencadeassem reações autoritárias em nome da defesa da democracia — o que não ocorreu no bom modelo dos Estados Unidos.

Enquanto assistia ao discurso de Joe Biden, no qual ele tentou se mostrar energizado para conter a desconfiança de que, aos 81 anos, já não teria condição de exercer um segundo mandato, quase acreditei que as democracias estão mesmo morrendo.

A falta de compostura foi geral, do discurso eleitoreiro do presidente americano à indumentária e à atitude de parlamentares republicanos. Polarização com sabor de polarização. Só não vou comparar ao Brasil porque o Brasil é incomparável.

Como forma e conteúdo andam a par, estive prestes a rezar pela defunta democracia, juntando-me aos apocalípticos. Felizmente, a minha lucidez conserva-se viva o suficiente para não cair em engodos, pelo menos não todos.

Na minha lucidez, considero que sempre houve uma minoria disposta a botar para quebrar. E ela botou para quebrar no 6 de janeiro americano e no 8 de janeiro brasileiro por falta de policiamento. Simples assim. Houvesse polícia, as invasões não teriam ocorrido. A maioria só chega até o confronto verbal.

Acredito também que o destino da democracia é a polarização política. Ela pode ser mais ou menos civilizada, mas veio para permanecer à flor da pele. Polarização gera polarização, e e ela só não tinha canais para mostrar a sua estridência. As redes sociais deram vazão à gritaria que calava no fundo dos coraçõezinhos partidos.

Polarização resulta em falta de compostura. Ela se manifesta com menos modos, menos cortesia, menos sutileza. A nova forma da democracia é a falta de educação e a raiva. Infelizmente, teremos de conviver com esse fato.

Como a polarização política só pode existir onde há liberdades, a democracia será sempre protegida por ela. Um lado jamais permitirá que o outro se apodere das instituições para dar um cala-boca a quem se lhe opõe. É um estado de luta pela existência no sentido darwiniano e, como tal, é constante. O discurso contra a polarização é arma ora usada por um lado, ora pelo outro, a depender de qual está no poder.

A democracia não vai morrer, ela apenas mudou as suas feições. Ou melhor, agora está mostrando o seu verdadeiro rosto. Ele pode não ser bonito, mas é um retrato mais fiel da massa de cidadãos que agora se expressam, esperneiam e pressionam mais livremente.

Por: Mario Sabino

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